Não consegui escrever antes porque estava sem palavras, agora que minhas sensações estão mais claras. Estar a frente de uma atividade nos dá outra perspectiva. Pedi a todos que levassem um tecido grande ou lenço e assim que foram chegando, os pendurei na barra da sala de dança do teatro. Iniciamos todos numa roda, de mãos dadas, circulamos nossas energias e o alongamento todo foi feito sem perdermos o contato com o outro. Propus um jogo de memorização corporal onde um iniciava com um movimento e a pessoa seguinte teria que fazer o do outro mais o dela e assim por diante até que o círculo fechasse de onde começou. Mesmo trabalhando com dança, a maioria teve dificuldades em memorizar todos os movimentos. Também trabalhei com rolamento de frente e de costas, tudo em círculo. Passamos para a experimentação com os lenços, ainda com lembranças da praia. Quantas imagens ficaram na minha cabeça! Um lenço se transformou em tantas coisas: cabelos ao vento, poça d'água, borboleta, pássaro, feto, toalha, travesseiro, vestido, ventania, agasalho... Escolhi uma pessoa para observar o restante do grupo e depois esta escolheu outra e trocou o lenço e assim foi até todos se observarem. Pausa para água e os lenços estavam no centro da sala, incensos acesos. Uma nova roda foi feita e cada um pegou o lenço que estava a sua frente. Olhos fechados e a sala em total escuridão. Todos vendaram seus olhos. Ainda pensando na fluidez e na vivência da praia, os movimentos começaram inseguros, pequenos, com cautela, reconhecendo as novas sensações causadas pela falta da visão. A sala estava iluminada apenas pela claridade da lua, aos poucos os olhos se acostumaram com a escuridão. Muitas sombras, silêncio e cheiro de incenso. Interações e solidão. Canções de ninar, sorrisos maléficos, sussurros, fungadas. Em vários momentos senti meu corpo se arrepiar por inteiro, assim como vontade de chorar e gargalhar. Brincadeiras na praia, risadas, mais solidão. Com o tempo alguns se sentiram livres para se locomover pelo espaço sem restrições. Dei mais estímulos a eles: água e assopros. Gritos aterrorizantes, choro, mais sussurros inaudíveis. Um pouco de conversa no final e meus agradecimentos a todos por estarem tão abertos às minhas propostas.
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