Expurgar. Nesse ensaio todas as minhas energias transbordaram pelos poros! Pra começar, uma massagem deliciosa que Cleyce fez em mim, foi a que eu mais fiquei quietinha, não sou uma boa receptora de massagem, minha cabeça está sempre a mil por hora. A sensação mais gostosa que tive foi a energização com as mãos quentes nas minhas articulações. Depois de quase uma hora de massagem entre as duplas, ficamos 5 minutos oxigenando o corpo correndo em círculo, com o mesmo passo, olhando pra nuca, e com algumas variações. Apesar do pouco tempo, senti que a qualidade dos meus movimentos caíram, já não tinha o mesmo vigor e o esforço era maior, com respiração ofegante. A sensação do sangue pulsando pelo corpo inteiro é deliciosa! Estava pronta pra entrar em cena! Foi mantido o círculo e iniciamos uma atividade onde duas pessoas ficavam no centro da roda, com as mãos pra trás e de olhos fechados. O objetivo era tirar o outro da roda. A força masculina ainda prevalece nesses momentos, mas as mulheres deram muito trabalho e resistiram bravamente durante o exercício. Sempre que ia um homem e uma mulher - na verdade não foi homem com homem nenhuma vez, a torcida era pra que a mulher conseguisse tirá-los da roda. Estava com muita sede de ir com um homem e minha primeira dupla foi com Luís. Imaginei que não fosse conseguir, então pelo menos quis intimidar o "adversário" com uma postura confiante. Coloquei os braços pra trás, vi a posição dele e fechei os olhos, não demorei muito para avançar em direção a ele e o tirei não com força, mas com desvio. Ele veio muito rápido pra cima de mim e apenas tirei meu corpo e ele passou correndo. Houve muita vibração! Mas nenhuma mulher quis ir comigo... Então o Gilberto veio pra acabar com a minha alegria, mas quero revanche porque ele atingiu seu ombro (eu imagino) no meu nariz e a dor foi imensa! Todas as mulheres do Atmosfera não entregam o jogo, somos guerreiras e determinadas! Pena que só foi uma vez mulher com mulher, seria páreo duro!!! Depois formamos duas filas nas diagonais da sala de dança e a proposta era ir correndo ao encontro do outro, chegar no meio da sala, saltar, gritar junto com o companheiro e ir para o final da outra fila. A continuação foi corrida e comunicação visual, um fazia rolamento enquanto o outro pulava por cima, com velocidade rápida. Do meio pro final ficou mais difícil por causa do cansaço. Mais um momento de pausa. Parecia que pelos meus poros saiam fogo. Olhos fechados, respiração consciente. Inversão. Respirar contraindo o abdômen e expirar relaxando. A repetição transforma intenções e gestos. A intensidade me trouxe o desequilíbrio do corpo, depois o deslocamento. A sensação do corpo consciente e relaxado me fez quase despencar no chão e iniciar princípio de queda e recuperação. Cada um com os mesmo estímulos e tão singulares, minha paixão maior pela dança é admirar essa diversidade de corpos e suas possibilidades dentro de uma mesma proposta. O Atmosfera me faz sentir isso claramente. Mais um estímulo nos foi passado, jogar flechas com nosso corpo, utilizando partes esquecidas por nós. Assim como o silêncio é muito importante para poder ouvir os nossos próprios sons, a música exerce uma influência de libertação dos movimentos - pelo menos dos meus. Comecei devagar, pensando em cada músculo, nas articulações, mas em um determinado momento, os movimentos saíram inconscientes, e as flechas foram disparadas com muita força e principalmente pelas extremidades do corpo. Foi um desabafo, uma liberação de energias, de todos os tipos. Tive vontade de gritar, mas principalmente de dançar, de estar em cena. Trabalhar com o lúdico ajuda muito na consciência corporal, brincar é se tornar livre, de julgamentos, impressões, preconceitos. Agora um bambolê estava no nosso corpo e não poderíamos deixá-lo cair. Se sentíssemos necessidade, a flecha poderia ser usada. Tenho uma grande identificação com movimentos sinuosos e circulares, foi prazeroso brincar com o bambolê e explorar meu corpo. Nos dois momentos senti muita tontura e fadiga, diminuia a intensidade dos movimentos e depois retomava. A diferença entre eles na minha imaginação era que as flechas eram sempre retilíneas e cortadas e o bambolê, movimento infinito. Criamos o hábito de sempre conversar após as experimentações, o que é de extrema importância para o crescimento artístico de cada um. Ouvir e dizer nossas impressões logo após a atividade é um exercício que nos permite conhecer a si, através do olhar do outro e o outro a partir das várias observações. Parabéns ao Gilberto pela experimentação!
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