12 de novembro de 2009

Primeira Publicação

Estou postando um relatório que fiz durante o processo criativo do meu solo "Salto" dentro do espetáculo Labirinto dos Poros. Em julho ele estava quase finalizado, sendo que após a primeira apresentação, ele sofreu grandes alterações, ótimas!!
O espetáculo ficou em cartaz todas as segundas-feiras do mês de agosto e a segunda temporada ainda não tem previsão de estréia. Estamos finalizando também.


Assim que soube do laboratório com solos, duas opções vieram na minha cabeça: a poesia "A Lua Adversa" de Cecília Meireles e a música "Se Tudo Pode Acontecer" de Arnaldo Antunes. Sempre me identifiquei muito com a poesia, ela fala muito sobre mim, mas a música me trazia recordações de uma viagem que fiz, estava apaixonada. Queria criar algo pra essa pessoa, mas acabou que, em um final de semana na casa de Leônidas, li algumas poesias de Cecília Meireles e me apaixonei pelo livro e decidi que meu solo seria criado a partir de suas poesias. Cecília Meireles teve grande importância da literatura brasileira do séc.XX, foi poetisa, pedagoga, jornalista e professora. Sua poesia é considerada intemporal porque possui influência tanto do Modernismo, da sua época, como do Simbolista e técnicas do Gongorismo, Surrealismo, Lirismo, Classicismo, Parnasianismo e Realismo.
Inicialmente escolhi o capítulo "Morena, Pena de Amor" e quanto mais eu folheava o livro, mais meu solo caminhava pra outra linha. Conversei com Leônidas sobre minhas angústias e ele sugeriu que eu já anotasse os que eu mais gostei, mas eu tinha gostado do livro quase inteiro! Me senti uma criminosa por eliminar alguns e todas as terças e quintas, antes dos encontros, relia todos e sempre diminuia mais, até que ficaram sete: "A Minha Princesa Branca", "Ísis", "Alguém Se Torna Presente", "Súbita Vigília", "Intermezzo", "Panorama Além", "Poema da Grande Alegria". Em comum todos falam de incertezas, de alguém que observa, da dúvida do presente ou do passado, de alguma forma, remete a solidão, tristeza e loucura.
Leônidas já me direcionou a experimentar "A Minha Princesa Branca" e pediu para que eu trabalhasse com fluidez do movimento, pois a poesia cita o mar, suaves brumas, céu, seda, água. Trabalhar com fluidez é um desafio pra mim porque gosto mais de executar movimentos de força.
Criar a partir das poesias foi complicado, ainda não sabia direito pra onde ia minha criação. No início estava insatisfeita com meu solo e achava tudo uma bobagem, Léo já havia dito que eu ia encontrá-lo dentro de mim.
Sempre imaginei o personagem prestes a cair no abismo, por causa da poesia "A Minha Princesa Branca". Depois descobri que ela era solitária e louca, imaginava coisas, depois de ler "Retrato de Mulher Triste".
Antes do salto ser meu elemento cênico, experimentei um lenço, e não me senti a vontade com ele, não consegui estabelecer nenhuma relação e pedi para trocar, então veio a sugestão de Leônidas em usar um salto alto. Depois da experimentação com o salto, as idéias começaram a surgir e minha personagem foi criando vida.
As orientações de Leônidas me ajudam bastante, estou constantemente conversando com ele sobre a criação e sugo tudo o que ele tem pra me oferecer de dicas. Também converso com as pessoas que assistem, sempre há o que melhorar e acrescentar.
O solo é silencioso, há apenas a poesia "Retrato" na voz de Paulo Outran quando o intérprete começa a se transformar em personagem, e no final, um barulho de pessoas conversando em um restaurante com uma música no fundo, no momento de ilusão da personagem. O salto alto é utilizado no seu momento de loucura e é apenas um, primeiro ela busca o outro lado e depois ela está com ele, fantasiosamente. O silêncio e a solidão do solo são características também da infância de Cecília Meireles, que perdeu seus pais muito cedo e foi a única sobrevivente dos quatro filhos do casal.
Depois dessas sete poesias senti necessidade de complementar minha pesquisa e encontrei mais algumas. Juntei trechos de umas, com frases ou apenas palavras de outras. São estas:

PERSONAGEM:
Das minhas mãos, que são tão firmes, cai-me o espelho, que era tão claro, e à meia-noite se divide, com meus olhos cheios de teatro. Nas grandes sedas do vestido, ficam meditando meus braços.
Uma mulher do alto da noite, ela anda nos céus vazios, em brancas noites morosas, e mira-se na água dos rios.
Quanto contemplo as encostas, de alma ansiosa por vencê-las, vejo-a no alto de mãos postas, muda e coroada de estrelas. Ela pensa que é solidão, que é tarde, e que o cristal levou seu rosto.

ESSÊNCIA:

Somos três:
Sombra, corpo, alma.
Cada um a seu modo vivendo junto os três andando.
Corpo vendo a sombra do corpo sonhando alma.
Corpo sofrendo com pena da alma e da sombra, impalpáveis num mundo virtual.
Corpo querendo ser corpo, e logo alma apenas.
Corpo, vulto, mistério, fantasma adestrado em artes de se julgar vivo, no entanto mais efêmero, talvez.
Corpo, no entanto, pensando-se.
Transferindo-se em alma, em sombra.
Copo sozinho entre enigmas.
Vastas areias do tempo aladas.
Sobre o copo e a sombra.
E alma também contempla.

IDENTIDADE:

Mostram-me espelhos - vejo outro rosto.
Procurarei meu rosto na água, nos vidros, nos olhos alheios. Duvidarei de mim, que me contemplo, da água, dos vidros, dos olhos que me refletem. Procurarei meu rosto com as mãos, como os cegos e sempre me encontrarei diferente.
Dizem meu nome - vejo outra vida.
Escreverás meu nome com todas as letras, com todas as datas - e não serei eu.
Repetirás o que me ouvistes, o que leste de mim, e mostrarás meu retrato - e nada disso serei eu.
Chamei cem vezes: responde-me o eco.
Procuro-te para sentir o molde de onde vieste, cópia dolorida.
Fala-me como alguém que me viu tão de frente que eu não posso saber se é o meu próprio retrato num espelho clarividente.
E aceito a sorte de estar perdida.

SEM TÍTULO:

Com loucura te procua minha vida.
De dia, te andei buscando, de noite, a buscar-te andei.
Pergunto-te onde se acha a minha vida. Em que dia fui eu. Não sei quanto tempo faz, nem se é noite ou se é dia. Não sinto onde é que estou, nem se estou.
Tão aflita, perguntava-me: "Por que vim?"
Toda ela - ou nasceu louca ou ficou enlouquecida.
Vão-se as minhas perguntas ao depósito do nada.
Era a noite, em redor. O grande cobertor da noite envolvia-me, opaco, abafava o mundo, as lágrimas, as lembranças - e o mistério do dia seguinte.
Já não sei mais a diferença de ti, de mim, da coisa perguntada, do silêncio da coisa irrespondida.
E os olhos abertos não viam nada, na fina cegueira da treva.

A partir desses quatro tópicos criei minha personagem. E abaixo segue meu texto:


Salto

A solidão me perturba
Vago incessante pelos cantos do quarto
A procura de mim.
O desespero invade o meu corpo
Tento resistir, mas rendo-me a angústia.
Nem aqui, nem lá
Não me encontro em lugar algum.
Sinto apenas minha respiração,
Não consigo me mexer.
Agora só o calor da sua mão me envolve
Uma parte de mim quer,
A outra não!
Passo as horas em devaneio
Cadê meu salto alto?
Preciso me arrumar, ele me espera!
Tenho o tempo contra mim
Não encontro, não acho
Tenho o tempo contra mim
Ele esteve sempre do meu lado.
Preparo-me para a grande noite
Coloco meu salto,
Ajeito meu vestido,
Perfumo meu corpo,
Faço um penteado
E sigo rumo a meras fantasias da minha imaginação.
(...)

Jul/2009

Um comentário:

  1. Muito bom D'Paula...
    Sempre criando e amando a dança, a arte, a vida, sendo esta bela bailarina e pessoa excepcional...
    Transmite vida em teu movimentos...
    Amei...

    Samara Volpony
    Impacto Cia de Artes

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