Jornal "O Paiz" - Rio de Janeiro, 2 de junho de 1930
Estrelas fonográficas... Por acaso foi descoberta alguma que venha pôr os discófilos em grande azáfama (Muita pressa ou intensidade na realização de algo) para ouvir os seus discos? Oh! Como não. Carmen Miranda...
- Carmen Miranda? Mas essa artista já tem tirocínio (aprendizagem) de uns quatro ou cinco meses de fonografia e não é uma descoberta recente, dirão alguns de nossos leitores.
Sim, é verdade, mas ninguém se faz estrela da noite para o dia, e, assim como um novo corpo celeste pode ser uma estrela ou uma nebulosa, ou ainda um simples aerólito, uma nova aquisição da fonografia pode ser ou não uma estrela. E quantos artistas não são senão aerólitos de rápida trajetória pelo firmamento artístico... Carmen Miranda, não. Ao surgir, deu logo provas de que era estrela, e estrela que aumenta diariamente de grandeza. Foi descoberta pelos observadores da Victor.
Carmen é, hoje, a maior expressão da nossa música popular entre os artistas do seu sexo. E no outro, bem poucos lhe ombreiam, por isso que no seu genero é única. Tão única como Stefana de Macedo no nosso folk-lore, Gastão Formenti nas canções, Francisco Alves nos sambas, este compartilhando com ela as suas honrarias, ficando os dois com a primazia para as respectivos sexos.
De fato, Carmen Miranda e Francisco Alves são os nomes máximos da interpretação do samba. Francisco Alves é um veterano, que ainda não encontrou quem lhe fizesse sombra... Mas a interpretação de Carmen Miranda é tão pessoal, tão sua, que os dois populares artistas correrão sempre paralelamente.
Carmen surgiu e venceu. Nasceu estrela. Tinha de ser estrela. Dirá um astrólogo que ela nasceu sob a influência benéfica e protetora de uma boa estrela. Nada disso, afirmamos. O que ela tem é talento. E o talento brilha como o sol. É o seu talento que a fez estrela, mas uma estrela tão brilhante quanto o sol, a cuja luz e calor se vem colocar para benefício próprio uma legião de imitadoras que não serão mais do que satélites seus.
Qualquer disco seu revela grande talento. Interpretando o samba ou a canção sentimental, a marcha carnavalesca ou a cançoneta cômica. "Dona Balbina", "Triste Jandaia", "Negrinho"... estão aí como exemplos vivos e vibrantes do que acabamos de afirmar.
Carmen é um ser em constante vibração. O seu temperamento de artista indica-lhe o caminho a seguir. O palco... a cena teatral, as grandes platéias, os aplausos da multidão tomada de entusiasmo, tudo isso exerce sobre o seu espírito uma atração a que ela não pode resistir.
Carmen será também, dentro de poucos dias, estrela teatral, como já é do disco. E terá companhia própria. Um empresário inteligente (e ainda os há) ouviu-a no festival promovido em homenagem à Miss Carioca e não soube deixar para outrem a glória de fazê-la a mais genuína intérprete do nosso teatro.
Fomos, pois, ouvi-la sobre os seus projetos, a sua futura atuação no palco.
- É verdade, disse-nos, acabo de ser contratada para uma companhia que terá o meu nome. Os empresários costumam ser homens gentis e galantes...
- Apenas rendem a sua devida homenagem, replicamos. A senhorita é hoje, sem favor, a maior expressão da nossa música popular; o seu sucesso nos salões não é menor que o dos discos e...
- Creio que há nisso tudo um exagêro, interrompeu-nos ela com convicção. Procuro apenas dar expansão ao meu sentimento, à minha alma. Sou e serei sempre muito pessoal nos meus trabalhos. Não procuro imitar. Os meus discos são a prova. Já ouviu o meu último, o "Negrinho" e "Gostinho Diferente"? Pois vai ouvi-lo.
E pegando de um disco colocou-o na Eletrola, que o reproduziu com mais vida e maior beleza, como se estivera rendendo homenagem à artista que nele confiava para mostrar o seu último trabalho.
- Sim, já o ouvimos, respondemos, e nossa opinião já foi publicada domingo passado. É, realmente, um ótimo disco. "Negrinho" está encantador. A música bonita e os versos humorísticos proporcionam à artista exibir amplamente os seus dotes de cantora sublinhando esta ou aquela palavra com uma malícia ou uma brejeirice inimitáveis.
- Carmen, perguntamos-lhe, qual a gravação que reputa mais fiel ao seu temperamento e à sua sensibilidade artística?
- Gravo pouco e por isso tenho de me preparar para uma boa interpretação. Além disso, sou muito exigente e, por felicidade, os meus amigos da Victor também o são. Não canto sem estar perfeitamente identificada com o espírito da música e da sua letra. Recebo centenas de músicas a mim dedicadas, mas não me deixo levar pelas homenagens senão quando sinceras. Quantos destes autores não buscam senão o reclame do meu nome, da minha aceitação? É bem verdade que não são todos... Há sempre muita coisa de valor, a que dou o meu apreço.
- Dizem, senhorita, que um disco de tango argentino cantado por si não será coisa de estranhar, dado o seu amor por essa música portenha...
- Ah! Sim. É verdade. Amo o tango. Ele me faz vibrar todas as cordas... Quero mesmo gravar um tango bem arrabalero, mas um tango em que possa mostrar...
- ...mais uma face do seu talento, interrompemos.
- ...mas talvez o meu público não receba bem esta minha atitude. A nossa música é tão rica e me tem proporcionado tantos êxitos, que até parece ingratidão fazer um parêntese em favor do tango. Ao tango, contudo, devo os meus primeiros êxitos e tenho o dever de mostrar-me grata a ele. Assim confirmo o boato. Mas não sei quando o gravarei e quero um tango inédito.
Já era tarde. Carmen estava apressada. Aquela hora deveria encontrar-se com os seus amigos que tomariam parte no seu festival de quinta-feira. E com um sorriso que deixou transparecer um colar de pérolas, a simpática e querida artista estendeu-nos a mão e pediu-nos que fôssemos ao seu festival no Lírico.
No palco, Carmen será a Carmen dos discos; o seu futuro está garantido por uma visão exata da época em que vive e por um grande conhecimento do valor da nossa bela e incomparável música popular."

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